Invisível? Talvez! O que importa é ser livre

Por Fábio Coêlho

Em passagem pela Avenida Paulista, me deparei com toda a diversidade que São Paulo oferece e entre as milhares de pessoas que passeavam pela calçada, avistei um senhor de uns 50 anos em média, tocando seu violão, com uma caixa amplificadora, bateria para a caixa funcionar, pedestal e microfone. À sua frente uma caixa com uma nota de dois reais e algumas moedas.

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Parei. E fiquei ouvindo a voz que, mesmo com algumas desafinadas, encantava e mim. Logo ele parou de tocar e cantar e eu disse parabéns e perguntei seu nome. O homem não disse, só respondeu: - Sou alienígena.

Fiquei sem entender, mas disse a ele que as vezes também acho que não sou desse planeta, pois ver o que as pessoas, que dizem protege-lo, na verdade estão a destruir. Poxa destruir nossa casa!

Ele largou seu violão e veio conversar comigo. Começou falando sobre a sua angústia em continuar a cantar nas ruas de São Paulo e perceber a sua invisibilidade.

“As pessoas passam por aqui, são milhares todos os dias. Elas parecem zumbis ou nem sei o que, só sei que estão insensíveis e ninguém faz como você [ele falava a mim] elas estão dominadas pelas telinhas de seus celulares e não olham mais ao redor”, desabafou o ser, que para mim realmente deve ser de outro planeta.

A nossa conversa continuou e por cerca de 20 minutos travamos um diálogo, onde aquela criatura, aquele artista de rua, que encanta com sua arte, sem pedir nada em troca, contou sobre as peripécias da vida de um artista de rua. Há e por escolha, pois ele me contou que é formado em Arquitetura, mas chegou à conclusão de que ao perceber o que o sistema capitalista faz com as pessoas, decidiu romper e viver como uma pessoa da rua.

Mas voltando à nossa conversa e as peripécias daquele ser extraterrestre, que me contava, com uma certa revolta, que todos estão hipnotizados pelo sistema, que leva a sociedade a uma vivência cada vez mais individualista, quando na verdade deveríamos trilhar os caminhos do compartilhamento.


“Ninguém faz como você. Parar, elogiar e conversar! Isso é inédito para mim. Sabe quem para? As crianças. Sim elas param e fazem seus pais saírem da hipnose e também pararem e aí quando vão dar a esmola, porque é isso que eles pensam que estão fazendo, eu respondo na lata: não precisa, o pagamento desse show foi feito pela atenção de seu filho ou filha. As pessoas me olham com um olhar de assustadas e não entendem. Mas é isso, todos estão hipnotizados pelas telinhas, pelo excesso de informação e não conseguem mais perceber a grandeza do mundo lindo que está à sua volta”, foi o que me contou o meu mais novo amigo, o extraterrestre.

A conversa foi, e falamos em Augusto dos Anjos, Niti, Bakunin, Marx, sobre o Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa até que deu a hora de voltar para a atividade, que acompanhava na cidade, e tive que me despedir daquela figura, invisível para muitos, mas que persiste levando sua arte e fazendo, de graça, a alegria das ruas da megalópole brasileira.

Nos despedimos umas quatro vezes e outros assuntos iam surgindo, mas no fim, ele virou para mim, agradeceu e disse que eu só posso ser como ele, um extraterrestre, pois se eu fosse humano, como todas aquelas milhares de pessoas, ou zumbis como ele denomina, que passam diariamente pela Avenida Paulista e que com seus rostos focados nos celulares e na própria individualidade, eu nunca teria parado, e se parasse, quando ele começasse a falar ia sair correndo.

 


Não eu não saí correndo. Eu aprendi muito com aquele grande cidadão, que não acredita em Lula e muito menos em Bolsonaro, que teve seus sonhos amordaçados pelo Capitalismo Selvagem, que não desistiu da vida, ele só caiu na real, que dificilmente conseguiria realizar tudo aquilo que um dia sonhou, ou talvez ele esteja realizando sendo livre, sendo senhor de sua vida, não se curvando aos senhores, donos do capital financeiro e que ditam como a sociedade deve caminhar.


No caminho de volta para o evento fui refletindo em tudo que ouvi, pois mais ouvi do que falei, e fiquei pensando: É eu acho que o meu amigo extraterrestre tem razão, eu também devo ser um extraterrestre, pois que assim seja! Prefiro enxergar os que não são vistos, prefiro compartilhar do que acumular, prefiro ser livre! Prefiro ser um extraterrestre...