Intolerância não combina com amor 

Por Fábio Coêlho

Há muito tempo queria escrever sobre as Casas de Matriz Africana, mas como fazer uma reflexão, sem pisar os pés em uma Casa de Asé? Fui. Gostei do que vi. E o meu grande questionamento só aumentou: porque tanta intolerância a um culto, que nada mais faz do que valorizar as nossas raízes ancestrais? Que busca o bem, que busca solucionar problemas diversos daqueles que os procuram e que talvez por isso, são achincalhados por aqueles que dizem agir em nome do amor, em nome de Deus e acabam ferindo não só os preceitos do Cristo, a que dizem seguir, mas ferem o artigo 5º da Constituição Federal (CF) que é bem claro em seu texto ao declarar inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício do culto, garantindo ainda, a proteção ao local em que este culto é realizado.  

Nos últimos anos, a violência ficou cada vez mais acentuada e até a grande mídia passou a divulgar alguns casos, o que levou inclusive, há cerca de dois anos, a Câmara dos Deputados, a pedido da deputada Érika Kokay, realizar um debate sobre a violência aos povos tradicionais de matriz africana e aos terreiros. De efetivo, por parte do Poder Público se vê pouco, mas ações como a de 2018 no Congresso, contribuem para a potencialização da discussão, e um fortalecimento da organização, o que, talvez, seja o único mecanismo eficaz contra a violência vivenciada dia a dia pelas Casas de Asé e seus membros. 

candomblePreconceito é causa principal da intolerância | Foto: Divulgação

Será que a alegria, a disposição, o amor em receber, a vontade de contribuir com o próximo, com o auto reconhecimento, será que é isso tudo que incomoda e faz tantas pessoas agirem de forma intolerante? Será? 

Porque não há outra explicação, pelo menos ao perceber a grandeza de tudo que aquelas pessoas fazem, vestidas de branco, com sorriso no rosto e disposição para o trabalho em prol do outro, não importando quem é este outro, ou outra. 

Tem uma frase de Nelson Mandela que sempre é bom relembrar: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”, e acreditando nestas palavras é sim possível continuar, com amor, ensinando a tolerância, ensinando o respeito e assim garantir um direito humano, tão fundamental, que é o direito e a liberdade de expressar a sua fé. Se eu posso expressar a minha, porque o outro não pode expressar a dele?  

Somos diversos, somos do Amém, somos da Paz do Senhor, somos do Salve Deus, somos do Asé, somos do Saravá, somos do Namasté, somos de Hosana, somos Helders, somos de Shalom, somos brasileiros, somos livres e podemos respeitar a liberdade do outro com amor, é isso que o Cristo, seguido por 86,6% da população brasileira, prega.