A trilha sonora do meu fim do mundo é o novo disco da Fiona Apple

Por Cecília Santos

 
Eu sou taurina. Pode parecer que essa informação é totalmente irrelevante pra começar o texto de uma coluna que trata de música, mas, calma, já explico. Afinal, você vai poder ler esse texto sem pressa, porque ninguém aqui vai a lugar algum. 
 
Quando digo 'sou taurina' quero dizer que provavelmente sou a pessoa mais egoísta que conheço. A máxima vale pra qualificar uma humana que não gosta de dividir comida, espaço, decisões e acredite se quiser, músicas. 
 
Quando se vive uma considerável quantidade de tempo fazendo com que discos e canções se tornem a trilha sonora da sua vida, é comum que as memórias que nascem de tudo isso sejam divididas com terceiros. 
 
Amigos, família, namorados. Um disco, uma lembrança partilhada. Uma canção um momento específico de algo que você viveu com um alguma pessoa. 
 
Pra você entender melhor, faço aqui o paralelo da cronologia de álbuns que vieram até mim com o que acontecia na minha vida naquele ano. Se quero lembrar quando um disco foi lançado é só recordar o que tava fazendo na época. 
 
Foi assim com o OK Computer do Radiohead, Is This It do Strokes, o Cê do Caetano, pra citar alguns. Cada um deles preencheu viagens, horas de amassos, festinhas, namoros, términos, mais viagens, novos empregos e por ai vai. 
 
Isso não é especial, porque não acontece só comigo. Quero acreditar que a maioria das pessoas conecta canções a momentos, e, muitas vezes, nem por escolha, mas por pressão própria do mainstream. 
 
O fato é que, por conta da premissa natural de que não vivemos sozinhos, divido as músicas que escutei com quem estava do meu lado. Nada é só meu. Se decido ouvir o primeiro do Strokes e meu ex-namorado que mora na França faz a mesma coisa, é inevitável que a gente imediatamente se lembre da mesma coisa. 
 
Se a decisão for pelo Funeral do Arcade Fire, tenho certeza que meus amigos vão reviver os mesmos momentos que juntos ouvimos 'Rebellion (Lies)' enquanto comentávamos como uma música pode ser tão boa. 
 

E assim é a vida. Por anos e anos acreditei que sempre teria que dividir isso também. Que ia ter que viver com a ideia de que nunca teria um só disco´pra chamar de meu. 

 

 
O sentimento perdurou até hoje de manhã quando acordei e lembrei que uma das minhas cantoras favoritas tinha lançamento. 
 
Depois de oito anos sem nenhuma novidade a deusinha Fiona Apple nos deu o 'Fetch the Bolt Cutters' nessa sexta-feira, 17 de abril de 2020. E por isso o dia começou comigo dando play na faixa 'I Want you to love me'. 
fiona appleFiona Apple
 
Lá pela terceira música, enquanto ainda tento me familiarizar com cada som e com cada camada dos instrumentos que ela empilha nas canções, enquanto tento entender o que ela tá cantando, enquanto sigo me identificando com as letras, me dei conta de que eu não divido Fiona Apple com ninguém. 
 
Nenhum amigo meu é fã, nenhum ex-namorado, ex-chefe, colega de trabalho, vizinho, NOBODY. Nunca precisei compartilhar um só momento com alguma música da Fiona tocando ao fundo. 
 
Todas as experiências com as canções dela eu vivi sozinha. No meu fone de ouvido, deitada no chão do meu quarto, sofrendo pra traduzir a letra de 'Criminal'  com um dicionário na mão e com a cabeça meio doida tentando entender o que aquela garota queria me dizer. 
 
E por isso, toda vez que escuto Fiona Apple eu só consigo lembrar de mim mesma. Ela é minha, toda minha.
 
Trilha sonora de voltinhas de bicicletas, de tardes de sábado estudando pra prova, de quando tento entender alguma briga, das ruas de BH, das paisagens das viagens de ônibus, das nuvens do avião quando volto pra casa, dos choros que duram horas e dos minutos intermináveis olhando pro nada pra refletindo na tentativa inútil de descobrir que diabos tem de errado comigo. 
 
É tudo meu. A voz, as letras atormentadas, os versinhos sofridos, cada nota do piano. Não preciso dividir com ninguém, não preciso lembrar de ninguém que não seja eu. 
 
Nesse momento, inclusive, escrevendo esse texto, sentada na minha cama com o quarto preenchido pela voz dela só consigo contemplar minha própria vida enquanto escuto o disco pela terceira vez. 
 
Sei que talvez não faça sentido algum pra quem lê esse texto a ideia de que não quero dividir uma artista com ninguém, afinal, a arte supostamente deveria ser para todos né? Mas pra mim bate bem ok o fato de que tenho a Fiona só pra mim.
 
Hoje, prestes a fazer 35 anos no meio de um mundo caótico, isolada de tudo, me sentindo mais sozinha do que nunca, quero acreditar que esse disco foi feito pra essa Cecília aqui. 
 
E assim, me tranquilizo ao pensar que daqui há 15 anos quando decidir escutar novamente vou lembrar de tudo que passei nessa época, que, involuntariamente, estamos condenados a viver na solidão de nós mesmos. 
 
Mais do nunca faz todo sentido que o 'Fetch the Bolt Cutters' tenha sido lançado nesse momento agora. Como daqui há 15 anos vai fazer todo sentido que a trilha sonora definitiva desse inferno, que talvez seja o mais desafiador dos tempos atuais, seja Fiona Apple. Perfeito, pra dizer o mínimo.
 
Sei que pra finalizar, como colunista musical, seria o correto recomendar muito que você escute o disco. Faço isso sim, porém, a contragosto. Escute. Esse novo disco, os anteriores, os anteriores antes desse. 
 
Do seu universo, torço para que você crie suas próprias lembranças com essa obra prima. Mas, dessa vez, não quero saber o que você achou, não precisa comentar comigo. Dessa vez, mais do que nunca, esse momento é meu. 
 
Boa sexta.