Girl power, Alanis e Duda Beat: nem começamos

Por Cecília Santos

duda 2Como não se identificar com as músicas da Duda Beat?! | Foto: Sher Santos

Quando eu era adolescente e usava camiseta de banda e tentava aprender a andar de skate, eu já era muito fã de rock'n'roll.

Feminista que sou, desde quando não me lembro, tive muita sorte quando a canadense Alanis Morissette insurgiu na minha vida como minha primeira diva do rock.

Força da natureza, a cantora, que sempre foi diferentona, era meu exemplo. Ela me acompanhou por paixões platônicas, términos sofridissimos de namoros que duravam duas longas semanas, dança em festinhas que terminavam às onze da noite e durante toda a fase que a gente acredita que será a mais difícil da vida da gente, quando o choro dói mais e as espinhas são um dos nossos maiores problemas.

Quantas e quantas tardes passei deitada no chão do quarto com o encarte do 'Jagged Little Pill' nas mãos tentando entender o que ela tava cantando, tentando decorar as letras e sofrendo com as frases que faziam sentido sem muito esforço. Porque né? Não tem coisa mais Alanis que sofrimento. Lições de vida. Versos cheios de verdade. Tapas na cara. You live, you learn.

Durante muitos e muitos anos, antes da Kathleen Hanna ou da Patti Smith era ela quem eu amava mais. Alanis foi meu primeiro show internacional da vida, ainda lá em 2002. Pausa para lágrimas.

Isso tudo é só pra dizer que o meu disco favorito dessa mulher tá completando 25 anos e vai ter turnê comemorativa. E pra mim, que cresci com essa playlist, isso é motivo de comemoração real, porque pensar em minas fazendo música, com atitude rocker se tornando símbolos de rebeldia numa época em que o rock e todos seus ícones eram homens parecia um sonho. Conseguimos!

Não é exagero pensar que enquanto a gente tinha um deserto super árido de mulheres produzindo e tocando na década de 90, hoje, no fim da década de 20 as coisas melhoraram um pouquinho. Até mesmo na nossa terrinha, acredite! Mês passado rolou em Palmas um fim de semana inteiro do Festival Sonora com oficinas e shows com uma programação girls only. Orgulhinho né? Algo meio impensável há quinze anos atrás.

Isso tudo é pra dizer também que no próximo fim de semana outra força da natureza, uma mulher que também amo demais, dessa vez com carimbinho nacional, vem trazer seu showzão pra gente.

Duda Beat, que vi tocar no Bananada deste ano é a principal atração do 15º PMW Rock Festival que começa na próxima sexta, 13. A dona e proprietária da sofrência pop promete ser a melhor performance do evento que esse ano rola durante três dias e é um presentão de fim de ano pra quem gosta da música que é feita no cenário independente.

De voz e versos fortes, com currículo e experiência em incontáveis bads, fossas, términos e boys lixo, a recifense foi a revelação nacional do ano passado com um álbum que faz a gente refletir sobre o sofrimento rebolando a bunda até o chão. Se isso não é empoderamento feminino, eu não sei mais o que é.

Quase - digo quase porque ainda temos mais um texto pela frente - que termino o ano nessa coluna que ressuscitou minha vontade de escrever sobre música de novo, refletindo sobre como foi esse 2019 que passou voando, relembrando as narrativas de mulheres que fazem música.

Parece clichê, mas é por isso que a gente precisa bater na tecla de que a representação importa né? Faz a gente se sentir parte, compartilhar uns sentimentos doidos e se sentir amiga de umas minas que a gente mal conhece, mas já ama pra caralho. Ver isso tudo rolando é bom demais.

Então que venha 2020, com muito girl power pra gente.